Duchamp como uma Metáfora Educacional

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Arte e Educação, possíveis relações conceituais

A Arte sempre me intrigou, e em grande medida, pela minha incapacidade de compreender a sua relação material com o imaterial, essa dualidade que as vezes se comporta de maneira antagônica  e/ou harmônica, o mensurável com um  imensurável.

Não tendo formação na área e carrego comigo todo histórico profissionalizante de alguém que teve que aprender rápido e muito cedo a negociar sua mão de obra,  mas acreditando no imensurável, quando visito as galerias de museus,  tiro minhas conclusões  estéticas de um “técnico, que só tem técnica dentro da técnica”

Quando tomei conhecimento da obra de Duchamp, um mictório apresentado como objeto de arte, fiquei muito confuso. Fui em busca de respostas em bibliotecas, conversei com  amigos… (se fosse hoje era só dá uma “googlada”) e nas pesquisas a confusão se acentuou, principalmente porque passei a conhecer outras obras artísticas, tão ou mais intrigantes que o mictório, e em saber dos altos valores pagos em transações realizadas em grandes leilões pelo mundo. Não entendia como algo que não representava nada, segundo a minha opinião, poderia ser tão valorizado.

Isso é Arte?

Will Gompertz me ajudou a minimizar essa angústia artística, mas não resolveu o problema com o seu livro que traz como título o mesmo questionamento que eu, e acredito que muitas outras pessoas já fizeram ao se deparar com muitas obras de arte. Isso é Arte?

Como disse anteriormente, não sou especialista e tenho como principal referência o livro citado, portanto quero deixar claro que esse artigo não trata de arte, mas utiliza a sua Estética para estabelecer relação com a Educação. Seria correto relacionar o imensurável com o mensurável no processo de ensino e aprendizagem?

Se sim, como metrificar esse processo?

Do Capítulo 20 – Arte agora: Fama e fortuna, 1988-2008-hoje, um trecho do livro para refletir:

“Se um marchand reconhecido, peso-pesado, está vendendo uma obra de arte que foi também exposta, digamos, no MoMA de Nova York, ela será vendida por um preço apreciavelmente mais alto do que se tivesse sido exposta uma única vez na escola primária local frequentada pelos filhos do artista. O fato de se tratar exatamente da mesma obra não importaria

Mas qual a relação da Educação com essas questões artísticas?

Teria o dinheiro desempenhado papel nessas relações, assim como na Arte?

Em “A Educação Estética do Homem”,  Schiller apresenta características relevantes para o processo educacional que não são de fácil mensuração, muitas vezes são fundamentadas em instintos e atitudes e numa obra mais contemporânea, “O Estilo Emocional do Cérebro”,  Davidson dá as bases cerebrais do estilo emocional e fala da importância da meditação para um bom Estado Mental

Qual seria o melhor Estado Mental para a aprendizagem?

Qual a relação dos aspectos atitudinais com os conceituais, metrificados em notas de 0 a 10?

Metrificar processos para a aprendizagem

Um ensino sem métrica é um processo de formação ao acaso!

Muitos educadores não concordarão com essa afirmação, mas o tempo atual exige um repensar educacional, uma reflexão docente do seu processo de ensino e aprendizagem… já dizia um professor: “Isso tudo é teoria, quero ver funcionar na prática!”

Como resposta, usarei palavras de outro professor: “Não existe prática sem teoria”, coloco apenas um adendo, o que pode existir é prática sem teoria científica.

 Nós docentes, precisamos analisar e refletir sobre nossas práticas, relacionando-as com nossas teorias, pois qualquer coisa que fazemos, em educação, são pautadas por teorias, sejam nossas ou de outros, a diferença é que quando são teorias científicas as possibilidades de referências são maiores. A escola,  quando desconhece essa relação, não consegue metrificar o seu processo educacional, nos diferentes segmentos, que muitas vezes acaba tendo como resultado, uma única métrica externa: “Somos medidos pelo ENEM!”

O ENEM e a Tecnologia Educacional

A melhor maneira de exemplificar a dicotomia entre o que se deve ensinar e o que se ensina sobre tecnologia é analisar uma questão de uma prova do ENEM

Analisando uma questão do ENEM de 2007

Do jeito que eu quero ser Os sites que abrem portas para mundos virtuais em três dimensões, como o Second Life ou o do jogo Star Wars Galaxies, são um dos grandes sucessos atuais da internet. Não é para menos. Eles tornam corriqueira e divertida uma prática que a psicanálise há tempos detectou ser comum a todos os seres humanos – a de projetar uma imagem ideal de si mesmo através de outras pessoas. É o que se faz, por exemplo, quando se pensa em ganhar na loteria e levar uma vida igual à dos milionários que aparecem nas revistas. Na internet, essa projeção de si próprio se chama avatar e não existe apenas na mente de cada um. Ela se materializa nos personagens criados para participar dos mundos virtuais. No mundo dos avatares não existe a baixa auto-estima. Todo mundo pode ser forte, atraente e dono de grandes habilidades sociais. É possível também se transmutar num personagem de desenho animado. Pode-se até mudar de sexo. Apenas no Second Life, perto de 9 milhões de avatares já foram inventados em todo o mundo. Os criadores dos personagens permanecem sentados à frente de seus computadores, mas suas criaturas ganham o mundo, lutam em guerras, eliminam monstros ou simplesmente namoram nas ruas de cidades imaginárias – mas bem reais na tela do monitor. (Veja Especial – Tecnologia, agosto, 2007, p. 18)

Afirma-se que o texto

I faz a apologia dos ambientes virtuais, afirmando os como oportunidade de ascensão social;

II equipara os avatares à projeção psicanalítica da imagem do indivíduo num outro ser;

III concebe negativamente o mundo virtual, visto que nele as pessoas não conseguem resolver suas questões de baixa auto-estima;

IV argumenta que o avatar é capaz de conferir ao indivíduo uma nova visão de si mesmo, dando he uma personalidade melhor.

É correto o que afirma apenas em

a) I.

b) II.

c) I e II.

d) II e III.

e) I, II e IV.

Segundo os avaliadores a resposta correta seria a b) II. Pergunto:

Qual disciplina ensinaria os conceitos sobre: Mundos Virtuais, Avatar e o jogos Second-Life e Star Wars Galaxies? (Lembrando que a prova foi aplicada em 2007?)

Se relacionarmos aos dias atuais (outubro de 2016, quando escrevo o artigo). O Second-Life não tem a mesma aderência entre os jovens e o virtual de hoje, pode ser acessado por óculos especiais que os próprios jovens podem criar. (movimento LaB, maker?)

Repito a pergunta:

Qual disciplina ensinaria esses conceitos?

Quem ajudará no desenvolvimento da proficiência tecnológica dos alunos no ambiente escolar?

O senso comum diz que os docentes formados na contemporaneidade, novos professores, estão aptos para a função… quantas horas são disponibilizadas  nos cursos de Licenciatura e Pedagogia para o ensino tecnológico?

Questione o senso comum!

A tecnologia digital continuará a sua marcha transformadora, quer a escola queira ou não, impulsionada pela sedução das suas novidades que conquistam novos usuários a cada dia. Ver artigo do Profº Paulo, As Sereias do  Ensino Eletrônico

Até quando a Escola, representada pela Direção Pedagógica e Docentes, continuará a não dar atenção as minucias que habitam o universo do imensurável, o estético(?), relacionando-os aos conteúdos disciplinares, mensuráveis(?)?

Até quando o valor monetário medirá a qualidade de processos pedagógicos?

Até quando, uma família, usará o ENEM como única medida para a aprendizagem?

Até quando…

A TECNOLOGIA SERÁ TRATADA COMO CONHECIMENTO INERENTE AO JOVEM CONTEMPORÂNEO?

Obs. Se quiser saber mais sobre algum dos temas tratados nesse artigo, coloque nos comentários.

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